Que Deus tenha piedade do Brasil e dos brasileiros

 

 

 

 

Por  Dilmar Ferreira

 

No dia 31 de dezembro passado, na esquina de duas grandes avenidas de uma cidade não tão grande, mas nem tão pequena. Uma cena chamou a atenção dos que passavam e observavam o que estava acontecendo: a polícia acabava de prender um homem nem negro nem branco, mas possivelmente pardo. Ele comprou um frango assado em um supermercado. No caixa viu que seu dinheiro não dava. Faltou R$5,00. Jogou o que tinha para o caixa e saiu correndo com o frango. A polícia estava nas proximidades e foi acionada. Em poucos instantes o homem estava nas garras dos policiais. Ele tentou correr da viatura e foi alveja nas pernas, mas bastante superficial. Caiu-se ao chão sangrando e foi assim que foi algemado, mesmo não correndo nenhum tipo de risco de escapar ou representar qualquer tipo de ameaça. Sua família que estava próxima veio ao encontro: a esposa com uma menina de dois anos ao colo e mais dois garotinhos de quatro e cinco anos, todos maltrapilhos.

Os curiosos foram chegando, com destaque para três religiosos. O primeiro, Católico, saia de uma igreja próxima, onde ouviu o padre dizer que “O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas é-o também para a comunidade eclesial inteira. A Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor”. Ao tomar conhecimento do acontecido disse para o preso que ele deveria criar vergonha na cara e arrumar um trabalho e para a esposa disse que tem muito trabalho que poderia fazer na cidade. Acelerou o seu veículo em disparada. O católico praticante virando para a esposa disse: a culpa disso é do Lula que quando foi presidente da República criou essa famigerada “Bolsa Família” e o povo deixou de trabalhar para viver na mordomia nas nossas custas.

Em seguida chegou um evangélico para saber o que se passava ali. Ele também acabava de sair de um culto na igreja que frequenta com a família. O pastor havia pregado sobre a caridade e a parte mais importante de sua pregação foi quando disse que: ‘Quando o Nazareno disse (Mateus 25: 40): “O que fizerdes a um desses pequeninos – pequeninos aqui são os maiores pecadores –, foi a mim que fizestes”, Ele quis mostrar que, como Ele nos ama de fato no mesmo grau com que Ele ama a si próprio, qualquer mal praticado contra alguém se torna também, pois, um mal contra Ele mesmo. A mensagem evangélica é realmente de amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Por isso, a caridade é a mais importante das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, a única que dura para sempre (1 Coríntios 13:13). A família evangélica da mesma forma ficou sabendo do motivo da prisão daquele senhor. Não disse nada, mas atribuiu a culpa aos governantes que não fazem a parte deles.

 

Agora foi a vez da chegada de um Espírita que da mesma forma acabava de participar de uma sessão do Centro Espírita Amor e Caridade. O estudo da noite foi a “Caridade na visão Espírita”. Ele havia participado de um debate sobre o tema e coube a ele ler um comentário do Livro dos Espíritos quando afirma: “Sempre há condições e oportunidades para o exercício da caridade, pois não há quem não possa doar algo, dedicar atenção a um irmão, vibrar positivamente por alguém; cada indivíduo, porém, procura e encontra meios de realizar o bem de acordo com a sua evolução espiritual. Mas, à medida que compreende que fora da caridade não há salvação (evolução), o Espírito esforça-se por praticá-la em suas diversas manifestações, eliminando assim, gradualmente, o orgulho e o egoísmo, na exata proporção que se eleva a Deus”. O Espírita foi mais um que nada fez e saiu afirmando para si mesmo que cada um carrega o fardo que lhe é próprio.

A viatura saiu do local levando o preso para a delegacia de polícia. A esposa e os filhinhos ficaram chorando e totalmente desamparados. A multidão afastou do local. Um homem, aparentando 60 anos, cabelos já não tão pretos, parou seu veículo e quis saber por que aquela mulher chorava ao lado das crianças. Ao tomar conhecimento do fato. Ligou para a esposa e pediu para que ela viesse até o local para prestar socorro para os maltrapilhos levando todos para a casa onde haveria uma ceia mais tarde para comemorar a passagem de ano. O desconhecido foi para a delegacia e lá pode assistir ao relato do preso:  “Acabei de ser demitido do trabalho na usina de álcool, na Fazenda Boa Esperança”. A diretoria da empresa, aproveitando a reforma trabalhista, demitiu quase a metade dos trabalhadores e recebi apenas o suficiente para chegar até à cidade e meus filhos estavam famintos e ao comprar um frango no supermercado, dei as últimas notas que restavam. O delegado dispensou o acusado, orientando-o para não voltar a praticar aquele ato.

Na saída o homem desconhecido chamou o preso que não estava mais preso e levou- o ao encontro de sua família que já estava em sua casa para participar da ceia. Uma servidora da casa do desconhecido fez um curativo na perna do maltrapilho. Depois da ceia, o desconhecido benevolente apresentou o homem para um amigo que ofereceu emprego em sua chácara para cuidar de seus animais. Ao despedir do benfeitor, o homem maltrapilho perguntou para o do no da casa: qual a religião do senhor? – Não tenho religião. Sou apenas uma pessoa que luta para que haja mais justiça social no Brasil e que haja uma melhor distribuição de renda para amenizar o sofrimento das pessoas, nossos irmãos. Vou lutar para que nas próximas eleições possamos eleger políticos que possam olhar para os pobres para tirar novamente o nosso país do desemprego e do mapa da fome. Simples assim!

 

*Dilmar Ferreira é editor do jornal O Anápolis