Lar InternacionalA carne de burro vem se transformando em opção mais em conta pela proteína animal

A carne de burro vem se transformando em opção mais em conta pela proteína animal

O impacto é tão profundo que o consumo anual per capita caiu ao menor nível em vinte anos, e alternativas antes impensáveis começaram a ganhar espaço.

por O Anápolis
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A crise econômica que atinge a Argentina continua produzindo cenas que chamam a atenção dentro e fora do país. Com a disparada dos preços da carne bovina — que em muitos casos ultrapassa os 25 mil pesos por quilo, segundo reportagens recentes — a proteína mais tradicional da mesa argentina tornou-se um artigo de luxo. O impacto é tão profundo que o consumo anual per capita caiu ao menor nível em vinte anos, e alternativas antes impensáveis começaram a ganhar espaço.

Entre elas, a carne de burro, cuja comercialização ganhou repercussão nacional após ser introduzida em um açougue da cidade de Trelew, na Patagônia. A iniciativa partiu do produtor Julio Cittadini, responsável pelo projeto Burros Patagones, que colocou o produto à venda por cerca de 7.500 pesos o quilo, valor muito inferior ao da carne bovina. A procura surpreendeu: segundo relatos, o estoque que deveria durar uma semana se esgotou em menos de dois dias.

A venda, embora incomum, é permitida pelo código alimentar argentino, desde que respeitadas normas sanitárias e autorizações locais. Na província de Chubut, o Ministério da Produção deu o aval para a comercialização, o que abriu espaço para que o episódio ganhasse visibilidade nacional. A mídia repercutiu amplamente o caso — inclusive canais de grande audiência, como o La Nación+, que exibiram reportagens com degustação do produto, gerando críticas de opositores que viram na cobertura uma tentativa de normalizar a queda no padrão de vida.

O tema rapidamente se transformou em disputa política. Enquanto críticos do governo afirmam que a busca por proteínas alternativas é um reflexo direto da recessão e da perda de poder de compra, apoiadores argumentam que se trata de um evento isolado, amplificado por narrativas oposicionistas. A polêmica também reacendeu discussões sobre a inflação persistente, que segue pressionando o bolso dos argentinos. Em março, o índice oficial registrou alta de 3,4%, o maior nível em um ano, segundo o Indec.

Nos açougues, a realidade é dura. Comerciantes relatam queda nas vendas, consumidores parcelando compras de alimentos e uma migração forçada para proteínas mais baratas, como frango, porco e ovos. Em Buenos Aires, açougueiros descrevem o momento como “uma recessão importante”, com famílias abandonando a carne bovina devido aos preços que chegam a 18 mil pesos por quilo em muitos bairros.

Assim, a carne de burro — antes vista como curiosidade — tornou-se símbolo de um país que tenta se adaptar a uma crise prolongada. Para muitos argentinos, a discussão vai além do prato: ela expõe, de forma crua, os desafios econômicos e sociais enfrentados pela população.

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