Lar EconomiaA montanha-russa da economia brasileira explicada em linguagem simples

A montanha-russa da economia brasileira explicada em linguagem simples

Reportagem especial: O aumento da dívida pública na última década

por O Anápolis
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Nos últimos dez anos, a economia do Brasil parece uma montanha-russa: sobe, desce, assusta, depois dá um alívio, e assim vai. Muita gente ouve falar em PIB, dívida pública, teto de gastos, arcabouço fiscal, mas não entende exatamente o que isso significa na vida real. Nesta reportagem, vamos traduzir esse “economês” para o dia a dia, mostrando o que aconteceu de 2016 a 2025, governo a governo, e por que a situação das contas públicas ficou tão complicada.

Logo no começo da análise, o texto técnico diz:

“A análise do PIB brasileiro na última década (2016-2025) revela uma economia de ‘montanha-russa’, marcada por choques externos, crises políticas e uma lenta transição de modelos econômicos.”

É exatamente isso que vamos destrinchar agora, em linguagem clara.

Antes de tudo: o que é PIB e o que é dívida pública?

Para entender a história, precisamos de duas chaves:

  • PIB (Produto Interno Bruto) é a soma de tudo o que o país produz em bens e serviços em um ano. É como se fosse o “salário” do Brasil.
  • Dívida pública é o quanto o governo deve para bancos, investidores, outros países e para quem compra títulos do Tesouro. É como se fosse o “carnê” do governo.

Quando o PIB cresce, significa que a economia está produzindo mais. Quando a dívida cresce muito mais rápido que o PIB, significa que o governo está se endividando demais em relação ao que o país produz.

Governo Michel Temer (2016–2018): saindo do buraco, mas devagar

Temer assumiu o governo em 2016, num dos piores momentos da economia recente. O país vinha de uma recessão forte em 2015, com empresas fechando, desemprego alto e inflação pressionando o bolso.

Em 2016, o PIB caiu –3,3%. Foi o “fundo do poço”. Em 2017 e 2018, a economia voltou a crescer, mas bem devagar: 1,3% e 1,8%. Por isso, muita gente chamava esse período de “pibinho”: crescia, mas não o suficiente para a população sentir uma grande melhora.

Para tentar organizar as contas, o governo Temer adotou uma política de austeridade fiscal. Isso significa: segurar gastos, cortar onde fosse possível e tentar passar reformas para “acalmar” o mercado. Nasceu aí o Teto de Gastos, uma regra que limitava o crescimento das despesas do governo à inflação do ano anterior. A ideia era impedir que o governo gastasse mais do que arrecadava.

Na prática, porém, a vida do povo continuou difícil. O desemprego ficou acima de 12%, o poder de compra caiu e o consumo demorou a reagir. A inflação até caiu, o que ajudou um pouco, mas não o suficiente para uma sensação de alívio generalizado.

Enquanto isso, a dívida pública continuou subindo. A análise mostra que, no governo Temer, a dívida federal passou de R$ 2,87 trilhões para R$ 3,87 trilhões. Aumentou cerca de R$ 1 trilhão em pouco mais de dois anos, ou seja, 34,84%. O motivo principal: o governo ainda gastava mais do que arrecadava (déficit) e pagava juros altos sobre o que já devia. Nesse ritmo, se tivesse ficado 4 anos teria ultrapassado 65%.

Governo Jair Bolsonaro (2019–2022): promessa liberal, choque da pandemia

Bolsonaro começou o mandato em 2019 com um discurso liberal: privatizações, menos Estado na economia, reformas para destravar investimentos. O ministro da Economia, Paulo Guedes, defendia redução de impostos, desburocratização e abertura econômica.

Em 2019, o PIB cresceu 1,2%. De novo, um crescimento tímido, abaixo do que se esperava para uma “virada de chave”. Mas o grande terremoto veio em 2020: a pandemia de COVID-19.

Com lockdowns, comércio fechado, viagens canceladas e medo generalizado, a economia mundial parou. No Brasil, o PIB caiu –3,3% em 2020. Foi uma queda forte, mas menor do que em alguns outros países, principalmente porque o governo criou o Auxílio Emergencial, que colocou dinheiro diretamente na mão das famílias mais pobres e evitou um tombo ainda maior no consumo.

Em 2021, veio o chamado “efeito rebote”: a economia cresceu 4,8%, muito porque estava se recuperando de uma base muito baixa de 2020. Em 2022, o PIB cresceu 3,0%, ajudado pela reabertura total da economia e por estímulos em ano eleitoral.

Mas esse movimento teve um preço: a dívida pública explodiu. O texto mostra que, no governo Bolsonaro, a dívida federal saltou de R$ 3,87 trilhões para R$ 5,95 trilhões, o que ultrapassou 53%. Só em 2020, os gastos para enfrentar a pandemia levaram a dívida a um recorde de quase 87% do PIB. Depois, essa relação dívida/PIB caiu para cerca de 73,5%, muito porque a inflação alta “inflou” o valor do PIB nominal (em reais correntes). Isso mesmo deu calote em grande parte dos precatórios e ainda fez com que os estados isentassem o ICMS do combustível para os consumidores com a promessa de que o Governo Federal faria a compensação, o que foi transferido para o ano seguinte e acabou caindo no colo do governo Lula.

Na vida real, o que a população sentiu foi:

  • Inflação alta, principalmente em alimentos e combustíveis;
  • Aumento da fome e do endividamento das famílias;
  • Desemprego ainda elevado, embora tenha começado a cair em 2022.

Ou seja: a economia voltou a crescer, mas o custo de vida disparou.

As “bombas fiscais” deixadas para o governo seguinte

Um ponto importante da análise é que algumas decisões tomadas no fim do governo Bolsonaro estouraram no colo do governo seguinte. Duas delas são centrais:

  1. PEC dos Precatórios
    Precatórios são dívidas que o governo é obrigado a pagar porque perdeu ações na Justiça. Em 2021, foi aprovada a chamada “PEC dos Precatórios”, que limitou quanto o governo poderia pagar por ano. O que passasse desse teto ficava “para depois”.
    Isso criou uma “bola de neve” de dívidas não pagas. Em 2023, já havia quase R$ 95 bilhões acumulados. O STF decidiu que isso era inconstitucional e mandou pagar. O governo Lula, então, abriu um crédito extraordinário de R$ 92,4 bilhões para quitar esse passivo. Esse gasto entrou de uma vez nas contas e aumentou a dívida pública, embora fosse uma conta gerada em anos anteriores.
  2. Desoneração dos combustíveis e ICMS
    Em 2022, para tentar segurar o preço da gasolina e da energia em ano eleitoral, o governo Bolsonaro e o Congresso limitaram o ICMS (imposto estadual) sobre combustíveis, energia e telecomunicações.
    Os estados perderam bilhões em arrecadação e foram à Justiça. Já no governo Lula, foi feito um acordo para ressarcir os estados em R$ 26,9 bilhões. Isso foi feito com abatimento de dívidas e repasses, o que piorou o resultado das contas federais e pressionou ainda mais a dívida.

Esses dois exemplos mostram algo importante: muitas vezes, o presidente que aparece como “gastador” está, na verdade, pagando contas atrasadas de decisões anteriores.

Governo Lula (2023–2025): mais gasto social, mais investimento e dívida em alta

Lula voltou à Presidência em 2023 com um discurso diferente: retomar programas sociais, aumentar investimentos públicos e fortalecer o mercado interno, mas sem perder totalmente a responsabilidade fiscal.

O PIB respondeu bem:

  • 2023: 3,2% de crescimento, puxado por uma safra agrícola recorde e aumento do consumo;
  • 2024: 3,4%, superando as previsões do mercado, com mercado de trabalho aquecido e aumento real do salário mínimo;
  • 2025: 2,3%, uma desaceleração, em parte planejada, por causa de juros altos para controlar a inflação.

O texto resume assim:

“O PIB brasileiro tornou-se muito dependente do clima. Anos de supersafra (como 2023) jogam o PIB para cima, enquanto secas ou geadas causam quedas bruscas.”

Ou seja, o agro virou um motor poderoso, mas também um ponto de vulnerabilidade: se o clima ajuda, o PIB sobe; se o clima atrapalha, o PIB sofre.

No modelo atual, o governo Lula adota uma linha chamada de neo desenvolvimentista: o Estado volta a ser um indutor do crescimento, com obras do Novo PAC, fortalecimento de programas sociais (como o Bolsa Família turbinado) e estímulo ao crédito. Ao mesmo tempo, o antigo Teto de Gastos foi substituído pelo Novo Arcabouço Fiscal.

O que é o Novo Arcabouço Fiscal, em termos simples?

O Novo Arcabouço Fiscal é uma nova regra para tentar organizar as contas públicas sem engessar totalmente o governo. Ele funciona, basicamente, em três pilares:

  1. Limite de gastos ligado à arrecadação
    Antes, com o Teto de Gastos, o governo só podia gastar o que gastou no ano anterior, corrigido pela inflação. Agora, o gasto pode crescer um pouco mais, mas sempre abaixo do crescimento da arrecadação.
    Em resumo: se a receita sobe, o gasto pode subir também, mas no máximo 70% desse aumento. Se o governo não cumprir a meta de resultado primário (equilíbrio entre o que entra e o que sai), esse limite cai para 50%.
  2. Tratamento de gastos extraordinários
    Situações como a “bomba” dos precatórios ou uma calamidade pública podem ser tratadas como exceções. O governo pode pedir autorização para gastar fora do limite, por meio de créditos extraordinários, sem precisar cortar saúde ou educação para pagar uma dívida antiga.
    Mas, em troca, precisa mostrar como isso vai afetar a dívida no longo prazo.
  3. Meta com banda de tolerância
    O governo trabalha com uma meta de resultado primário (superávit ou déficit) que tem uma margem de erro de 0,25% do PIB para mais ou para menos. Isso dá uma pequena folga para absorver choques sem ser considerado descumprimento da regra.

Na prática, o Arcabouço tenta equilibrar duas coisas:

  • Permitir que o governo invista e mantenha programas sociais;
  • Evitar que a dívida saia totalmente do controle.

E a dívida, afinal, onde foi parar?

Quando olhamos a década inteira, a conclusão é dura: a dívida real do Brasil quase dobrou. O texto técnico resume assim:

“Ao compararmos o início da série com o final de 2025, corrigindo pela inflação, percebemos que a dívida real do Brasil quase dobrou em uma década. Enquanto em 2016 a dívida valia o equivalente a R$ 4,7 trilhões em dinheiro de hoje, encerramos 2025 com um estoque de R$ 8,6 trilhões.”

No governo Lula (2023–2025), a dívida nominal passou de R$ 5,95 trilhões para R$ 8,63 trilhões, um aumento de 45% em três anos, isso porque o seu governo foi obrigado a pagar o calote dos precatórios deixado pelo governo Bolsonaro e ainda quitar a dívida com os estados uma vez que foram forçados pelo governo anterior a isentar os impostos dos combustíveis para impedir o petróleo provocasse o maior índice inflacionário de todos os tempos.  Com isso, as principais consequências foram:

  • Juros muito altos (Selic elevada), que encarecem o custo da dívida;
  • Aumento de gastos públicos, inclusive para pagar contas herdadas (precatórios, ressarcimento aos estados);
  • Programas de investimento e políticas sociais mais robustas.

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