Lar EconomiaTrês governos, três cenários: como a economia brasileira se comportou nos períodos Temer, Bolsonaro e Lula (2023–2025)

Três governos, três cenários: como a economia brasileira se comportou nos períodos Temer, Bolsonaro e Lula (2023–2025)

REPORTAGEM ESPECIAL. Ao longo dos últimos anos, a economia brasileira passou por três fases distintas sob os governos de Michel Temer, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (terceiro mandato). Cada período teve seus próprios choques, estratégias e resultados, mas todos foram marcados por um fio condutor comum: a busca por equilíbrio entre crescimento, controle da inflação, emprego e sustentabilidade das contas públicas.

por O Anápolis
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 Governo Michel Temer (maio de 2016 a dezembro de 2018)

Recessão profunda, ajuste duro e início de recuperação lenta

Michel Temer assumiu a Presidência em 12 de maio de 2016, em meio a uma das maiores crises econômicas da história recente do país. A economia vinha de dois anos seguidos de forte queda do PIB, inflação alta, desemprego crescente e perda de confiança.

Cenário inicial:

  • Salário mínimo: R$ 880,00
  • Dólar: em torno de R$ 3,47 em maio de 2016
  • Inflação em 12 meses: 9,32%
  • Selic: 14,25% ao ano
  • Desemprego: 11,2% (cerca de 11,4 milhões de pessoas)
  • Dívida bruta: cerca de 69,8% do PIB em 2016 (R$ 2,9 trilhões)

Durante o governo Temer, o foco foi em medidas de ajuste e estabilização, como o teto de gastos e reformas microeconômicas. A economia saiu da recessão, mas com crescimento fraco.

PIB:

  • 2016: –3,3%
  • 2017: +1,3%
  • 2018: +1,8%

A inflação caiu de patamares muito elevados para níveis mais próximos da meta, permitindo a redução gradual da Selic. Ao final de 2018, o cenário era de inflação controlada, juros mais baixos e uma economia ainda frágil, porém em trajetória de recuperação.

Situação ao fim de 2018:

  • Dólar: R$ 3,87
  • Inflação (2018): 3,75%
  • Selic: 6,50% ao ano
  • Desemprego: 11,6% (cerca de 12,2 milhões de pessoas)
  • Dívida bruta: 75,3% do PIB
  • Dívida Pública Federal: R$ 3,877 trilhões
  • Salário mínimo: R$ 954,00

No período, o salário mínimo teve reajustes nominais, mas com ganho real muito pequeno e até perda em um dos anos. Entre 2016 e 2018, houve:

  • anos com aumento real pequeno (acima da inflação)
  • em 2018, perda real, quando o reajuste não cobriu a inflação do ano anterior

Em resumo, o governo Temer:

  • recebeu uma economia em recessão profunda
  • entregou inflação baixa, juros menores e PIB voltando a crescer
  • mas com desemprego ainda alto, dívida em trajetória de alta e perda de poder de compra acumulada para quem vive com salário mínimo.

Governo Jair Bolsonaro (2019–2022)

Pandemia, choque inflacionário, desvalorização do real e recuperação do emprego

O governo Bolsonaro começou em janeiro de 2019 com uma economia ainda em recuperação lenta. Em 2020, a pandemia de COVID-19 mudou completamente o cenário, exigindo gastos emergenciais e provocando forte queda da atividade econômica no mundo todo.

Dólar:

  • Início de 2019: R$ 3,80
  • Final de 2022: R$ 5,21
  • Máxima no período: R$ 5,97 em 2020

A desvalorização do real refletiu incertezas internas, crise sanitária, choques externos e aumento da percepção de risco.

Inflação (IPCA) – acumulado 2019–2022: 26,93%

  • 2019: 4,31%
  • 2020: 4,52%
  • 2021: 10,06%
  • 2022: 5,79%

O ano de 2021 foi o ponto mais crítico, com inflação de dois dígitos, puxada por combustíveis, energia e alimentos, em um contexto de problemas logísticos globais e alta de commodities.

Taxa Selic:

  • Início de 2019: 6,50% ao ano
  • Mínima histórica: 2,00% ao ano em 2020
  • Final de 2022: 13,75% ao ano

A Selic caiu fortemente em 2020 para tentar sustentar a economia durante a pandemia, mas depois precisou subir de forma agressiva para conter a inflação.

Desemprego:

  • Início (fim de 2018): 11,6%
  • Pico: cerca de 14% em 2021
  • Final de 2022: 7,9%

Houve forte deterioração do mercado de trabalho durante a pandemia, seguida de recuperação com a reabertura da economia e retomada dos serviços.

Salário mínimo:

  • 2019: R$ 998,00
  • 2022: R$ 1.212,00

Apesar dos reajustes nominais, estudos apontam:

  • perda real de cerca de 1,7% no período
  • ou seja, o salário mínimo não acompanhou a inflação acumulada, reduzindo o poder de compra.

Dívida pública:

  • Dívida Bruta do Governo Geral:
    • início: cerca de 75% do PIB
    • pico em 2020: quase 90% do PIB (gastos emergenciais da pandemia)
    • final de 2022: 73,5% do PIB
  • Dívida Pública Federal:
    • 2018: R$ 3,877 trilhões
    • 2022: R$ 5,951 trilhões

Houve forte aumento nominal da dívida, com pico relativo ao PIB em 2020, seguido de recuo com a retomada da atividade e inflação mais alta (que também “infla” o PIB nominal).

Em síntese, o governo Bolsonaro:

  • enfrentou o choque extraordinário da pandemia
  • viu o dólar disparar e a inflação subir, especialmente em 2021
  • terminou com juros muito altos e dívida maior em termos nominais
  • conseguiu reduzir o desemprego no fim do período
  • mas com perda real do salário mínimo e forte volatilidade macroeconômica.

Terceiro governo Lula – primeiros três anos (2023–2025)

Queda do desemprego, inflação sob controle, salário mínimo com ganho real e pressão fiscal crescente

O terceiro mandato de Lula começou em 2023 com uma economia saindo da fase mais aguda da pandemia, mas ainda marcada por juros altos, câmbio pressionado e desafios fiscais.

Dólar:

  • Início de 2023: R$ 5,36
  • Final de 2025: R$ 5,50

O câmbio se manteve volátil, com momentos de forte pressão ligados a incertezas fiscais e debates sobre metas de resultado primário. Em 2025, houve algum alívio, mas o dólar permaneceu em patamar elevado.

Inflação (IPCA) – acumulado 2023–2025: cerca de 14,5%

  • 2023: 4,62%
  • 2024: 4,83%
  • 2025: 4,26%

A inflação ficou em torno do teto da meta, com tendência de queda e 2025 marcando o retorno ao teto formal, após dois anos ainda pressionados por combustíveis, alimentos e serviços.

Taxa Selic:

  • Início de 2023: 13,75% ao ano
  • Mínima no período: 10,50% em 2024
  • Final de 2025: 14,33% ao ano

Os juros permaneceram altos. Houve um ciclo de cortes, mas a combinação de pressões inflacionárias e dúvidas fiscais levou a nova alta, encerrando 2025 com Selic ainda maior que no início do mandato.

Desemprego:

  • Dez/2023: 7,8%
  • Dez/2024: 6,2%
  • Dez/2025: 5,1%

A taxa de desocupação caiu de forma consistente, atingindo em 2025 o menor nível desde 2012. Isso reflete:

  • retomada do setor de serviços
  • programas de incentivo ao emprego
  • ambiente de atividade econômica mais estável do que no auge da pandemia.

Salário mínimo:

  • 2023: R$ 1.320,00 (ganho real de 2,8%)
  • 2024: R$ 1.412,00 (ganho real de 3%)
  • 2025: R$ 1.514,00 (ganho real estimado em 3%)

O governo retomou a política de valorização real do salário mínimo:

  • foi o primeiro ciclo contínuo de ganhos reais desde 2016
  • houve recuperação parcial do poder de compra perdido nos anos anteriores.

Dívida pública:

  • Dívida Bruta do Governo Geral:
    • final de 2022: 73,5% do PIB
    • final de 2025: acima de 78% do PIB
  • Dívida Pública Federal:
    • 2022: R$ 5,951 trilhões
    • 2025: R$ 7,820 trilhões
    • aumento nominal: R$ 1,869 trilhão
    • crescimento nominal: cerca de 31,4%
    • aumento real (descontada inflação de 14,5%): em torno de 14,7%

Ou seja, a dívida cresceu mais do que a inflação, tanto em termos nominais quanto reais, pressionando o cenário fiscal.

Em resumo, os três primeiros anos do atual governo Lula:

  • reduziram o desemprego a níveis historicamente baixos
  • mantiveram a inflação sob controle, ainda que com juros muito altos
  • retomaram a valorização real do salário mínimo
  • mas ampliaram a dívida pública, em um contexto de déficits e gastos elevados, o que mantém a área fiscal como ponto sensível.

Comparando os três períodos

Temer (2016–2018):

  • Herdou uma recessão profunda
  • Conseguiu derrubar inflação e juros
  • PIB voltou a crescer, mas pouco
  • Desemprego permaneceu alto
  • Dívida cresceu e o salário mínimo teve ganho real muito limitado, com perda em 2018

Bolsonaro (2019–2022):

  • Enfrentou a pandemia e seus choques globais
  • Viu o dólar disparar e a inflação subir, especialmente em 2021
  • Reduziu a Selic a mínima histórica e depois elevou fortemente para conter a inflação
  • Terminou com desemprego em queda, mas com perda real do salário mínimo
  • Dívida pública aumentou muito em valor nominal, com pico relativo ao PIB em 2020 e recuo posterior

Lula 3 (2023–2025):

  • Operou em ambiente de juros altos e câmbio volátil
  • Conseguiu reduzir o desemprego a patamar historicamente baixo
  • Manteve a inflação em torno da meta, com trajetória de queda
  • Retomou a política de valorização real do salário mínimo
  • Mas viu a dívida pública crescer de forma relevante, tanto nominal quanto real, elevando a preocupação com o quadro fiscal

Conclusão geral

Os números mostram que a economia brasileira, ao longo desses três governos, oscilou entre fases de ajuste, choque e tentativa de recomposição social:

  • Temer estabilizou preços e juros, mas com crescimento fraco e desemprego alto.
  • Bolsonaro atravessou o choque da pandemia, com inflação forte, desvalorização do real, dívida em alta e recuperação posterior do emprego, porém com perda de poder de compra do salário mínimo.
  • Lula (2023–2025) combinou melhora expressiva no mercado de trabalho e valorização real do salário mínimo com juros elevados, câmbio volátil e aumento da dívida pública.

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