A proposta de redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 reacendem o debate sobre o equilíbrio entre produtividade e qualidade de vida no Brasil.
Tendência regional
Nos últimos anos, diversos países da América Latina vêm reduzindo o tempo dedicado ao trabalho, buscando alinhar suas legislações às recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que sugere jornadas de até 40 horas semanais.
A exceção é a Argentina, que sob o governo de Javier Milei ampliou a jornada para até 12 horas diárias, em sentido oposto às reformas regionais.
Colômbia: redução gradual e consenso político
Na Colômbia, a jornada caiu de 48 para 42 horas semanais, sem redução salarial. A lei foi promulgada em 2021 pelo então presidente Iván Duque, após proposta do ex‑presidente Álvaro Uribe.
A medida foi vista como uma resposta às manifestações populares de 2019 e contou com apoio do empresariado, passando pelo Congresso sem grandes resistências.
O professor colombiano Sebastián Granda Henao, da Universidade Federal da Grande Dourados, explica que a reforma teve caráter conciliador:
“Foi uma resposta à revolta social de 2019, buscando apaziguar os ânimos e atender aos anseios populares”, afirmou.
México: reforma sob governo de esquerda
No México, o governo da presidente Claudia Sheinbaum, do partido Morena, promulgou em março de 2026 a redução da jornada de 48 para 40 horas semanais, também sem corte salarial.
A aplicação será gradual, começando em janeiro de 2027 e chegando ao limite de 40 horas em 2030.
O cientista político Daniel Enrico Martuscelli, da Universidade Federal de Uberlândia, destaca que a ampla aprovação popular do governo facilitou a aprovação da reforma:
“Com mais de 70% de aprovação e maioria no Parlamento, Sheinbaum teve condições políticas para avançar com a medida”, explicou.
Chile: reflexo das mobilizações sociais
No Chile, o governo de Gabriel Boric sancionou em 2023 a redução da jornada de 45 para 40 horas semanais, também de forma gradual.
A mudança foi impulsionada pelas manifestações de 2019, conhecidas como “estalido social”, que cobravam reformas estruturais e maior proteção trabalhista.
O professor José Dari Krein, da Unicamp, lembra que o projeto teve forte apoio popular e enfrentou resistência empresarial:
“O discurso empresarial é sempre o mesmo — de que isso traria custos. Mas a pressão social e sindical foi determinante”, afirmou.
Brasil: debate em andamento
No Brasil, a proposta de reduzir a jornada de 44 para 40 ou 36 horas semanais, com o fim da escala 6×1, ainda enfrenta resistência de setores empresariais.
Pesquisas divergem sobre os impactos da mudança no PIB e na inflação, mas especialistas apontam que o debate reflete uma tendência global de valorização do tempo livre e da saúde mental dos trabalhadores.
